Páginas 29,30,33,34, 37 e 38: Trajetória de Azambuja Calado
com muita atenção. Com muita paciência, saía a qualquer hora do dia ou da noite. Montado naquele cavalo, quase inseparável, ia atender a quem precisasse. Lembro-me de certa vez: já era noite e meu tio Ieié saiu em busca de Zé Inácio. Meu avô, Chico Afonso, estava muito mal, com uma infecção no canal da uretra, resultado, talvez, de uma gonorréia mal curada na época da adolescência. Suponho, pelas histórias que ouvi, que Chico Afonso não dava mole, pelo menos era o que diziam os outros.
Depois de quase uma hora cavalgando em cavalo emprestado do Zé Arantes, Ieié chegou a Xopotó. Lá, encontrou Zé Inácio em seu laboratório, vestido de guarda-pó, como se já estivesse esperando por algum chamado. Arreou o cavalo baio31, montou e veio junto com Ieié. Chegaram com uma enorme chuva e ambos usavam uma capa de chuva para se proteger um pouco. Um pouco, pois do joelho para baixo molhava-se tudo. Zé Inácio checou meu avô, aplicou-lhe uma injeção, deu-lhe uns comprimidos e, em pouco mais de meia hora, Chico Afonso já se sentia aliviado. Já conseguira urinar umas gotas no “pinico” que ficava debaixo do catre32. Vendo esse primeiro resultado Zé Inácio despediu-se de nós. Tinha que voltar a Xopotó, afinal tinha que descansar para as horas seguintes, ou quem sabe ter que atender a alguém em outras bibocas33. Vaivém, não era a maior distância que ele percorria para atender. Na verdade, não havia distância para ele. Longe ou perto, ele chegava em seu cavalo. Zé Inácio atendia a todos, pobres, ricos ou miseráveis. Todos não. Alguns viajavam de Jeep até Alto Rio Doce ou mesmo Barbacena. Dependendo da gravidade, os enfermos eram levados diretamente para a Santa Casa em Barbacena. Ainda assim Zé Inácio acompanhava alguns. O grande cidadão
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31 - Baio - Castanho, e o do Zé Inácio com crinas longas.
32 - Catre - cama pobre e rústica.
33 - Bibocas - Localidades de difícil acesso.
xopotoense tinha uma preocupação enorme com o social. Seguramente grande número de seus enfermos não pagavam a conta. Pobres ou remediados não pagavam consulta ou mesmo a medicação que ele dava aos doentes. Meu avô mesmo, coitado, e Ieié eram duros de dar dó. Eu mesmo nunca soube o valor dos atendimentos feitos por Zé Inácio. Sem contar as vezes de receitas prescritas, quando a medicação viria de Barbacena ou mesmo de Juiz de Fora. Em Barbacena, àquela época, havia dois hospitais. O problema era a estrada que fazia a ligação das duas cidades: estrada de terra, traiçoeira, cheia de curvas fechadas. Saindo de Barbacena, pega-se um trecho de asfalto até a localidade de Sra. das Dores, passando por Pinheiro Grosso, a poucos quilômetros dali. Após esse trecho é terra pura. Depois de Sra. das Dores, desce-se uma serra até Desterro do Melo (no pé da serra nasce o Rio Xopotó). A partir daí, a estrada vai margeando o Xopotó em meio às montanhas e colinas. É bonito de se ver! Em alguns trechos ele desaparece atrás dos morros e depois ressurge. Em Desterro do Melo fizeram até um parque aquático próximo de sua nascente. Quase todos os que passam por ali param para um mergulho em águas cristalinas. Eu ainda não parei. É que, toda vez que viajo pra lá, vou de ônibus, que só faz parada no centro da cidade. A parada é curta, o suficiente para um cafezinho e para o motorista checar os pneus do veículo.
Como meio de transporte daquela região é comum ver um fusca, moto, carro de boi e, obviamente, o cavalo.
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O Ieié e Chico Afonso não tinham cavalo nem carro de bois. Caminhávamos com nossas próprias pernas ou montados em algum cavalo emprestado pelos Arantes. Lembro-me de que, muitas vezes, nós nos levantávamos no escuro, saíamos em direção a Xopotó, quase sempre pra uma cerimônia religiosa.
Certa vez saímos, minha avó e eu, e, ao passarmos por um boqueirão34 bem próximo de nossa casa, vi que um senhor vestido de terno escuro caminhava em nossa direção. Minha vó também viu e foi logo me dizendo: "Vá em frente e não olhe para trás". Aquele vulto passou por nós e eu tremi. Só depois de alguns anos minha vó me contou que aquele era meu tio que tinha morrido havia poucos dias. Ela me disse também que, se eu olhasse para trás, não teria visto ninguém e poderia ter ficado chocado ou mesmo com traumas.
Bem, em Xopotó ainda há muitas festividades no decorrer do ano. Festas que se iniciam na alvorada, com uma missa com queima de fogos e música executada pela Banda Lira de Santa Cecília. Tudo acontece antes do sol aparecer por lá.
Naquele dia do vulto, a lua estava presente. Não havia necessidade de tochas ou lampião. Lá, até hoje, é muito escuro em noites sem lua cheia. Eu mesmo, não me acostumei à escuridão. Ainda hoje, se vou a Xopotó, saio com uma lanterna de bolso. Fico na casa que era da minha outra avó, Juvinha, e do meu avô Artivino, que moravam próximo da cidade, ali na Barra. Depois de uma caminhada de vinte minutos por estrada de terra, entre bambuzais, chega-se à cidadezinha. Nas localidades de Brejaúba, Vaivém, Brinco, Jabuticaba, Paciência
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34 - Boqueirão - Local da estrada com barranco e vegetação em ambos os lados.
e mais uma infinidade de lugarejos, a luz à noite é à base de lamparina a querosene.
Não faz muito tempo, saí em férias por aquelas bandas e constatei que muitas casas não existem mais e que outras foram construídas. Algumas continuam lá como se fossem monumentos: a do Chico Arantes, a do Zé Arantes e as do Zé Silva e do Nô do Colim, ambas na Paciência, etc. A dos Barretos foi derrubada, assim como a do Chico Afonso, a da Tia Maria Alves e a do Tio Zote. Estas eram casas que minha avó freqüentava bastante e eu sempre a acompanhava.
A casa do Zé Arantes, aquela próxima do canavial do lado de cima da estrada, era a que eu mais freqüentava. Primeiro porque era lá que tinha a escola da tia Geralda e, depois, por ser a mais próxima de todas. Além do mais, Zé Arantes sempre nos dava uma tarefa: no paiol descascávamos e debulhávamos o milho, no engenho fazia a garapa para produção de rapadura. Depois de moída a cana, carregava-se o bagaço para o sol e o bagaço que já estivesse seco, da semana anterior, era usado para iniciar o fogo da fornalha35. Depois do fogo iniciado usava-se lenha seca. Demorava para iniciar a fervura do caldo-de-cana. Sodé Arantes e Ieié não permitiam que eu ficasse muito próximo daquele calor, pois podia me queimar ou até mesmo cair naquele enorme tacho com líquido verde fervente. Pelo menos, esse era o argumento deles para me afastar da tentação de ficar por perto, ali junto deles. Eles tinham receio de que aprontasse alguma coisa. Quando muito eu punha lenha no fogo e, em seguida, afastava-me da boca do fogaréu.
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35 - Fornalha - Construção de tijolos e onde é colocado o grande tacho de cobre.
A cana era colhida no dia anterior e transportada no carro de boi. Até hoje esse ritual se processa. Não mais com Sodé e Ieié, pois já partiram há alguns anos.
Muitos se foram. Vários, há muitos anos. Puxa vida, não pretendo falar de coisas tristes. E a tristeza reside de forma diferenciada em cada um de nós. Na verdade, pretendo continuar, sempre que possível, minhas andanças, por Vaivém e por todos aqueles lugares já citados, de forma divertida.
Chico Afonso gostava mesmo era de caçar. Lembro-me de muitas de suas saídas com a espingarda e os apetrechos de caça. Era raro ele voltar sem ter cumprido seu objetivo. Ele sempre trazia uma ave silvestre ou mesmo um bicho do mato. Muitos desses bichos ou aves davam um belo almoço e, se a caçada fosse farta, sobrava ainda pra janta.
Hoje, andando por aquelas paragens, não se ouve mais tiros. Naquela época era comum qualquer pessoa possuir uma espingarda. Alguns preferiam caçar nos brejos ou às margens do Rio.
Tio Ieié possuía uma espingarda de um cano. Naquela arma não dava pra usar cartucho. Ele a carregava pelo cano, com buchinha vegetal, espoleta, pólvora e chumbinho. Havia dias que ele trazia duas caças bastante proveitosas. Hoje não se caça mais. Naquela época caçaram quase todas. As que conseguiram sobreviver após a proibição, devem estar por lá passeando pelas matas e cerrados. Os que moram hoje em dia naqueles lugares tomaram consciência sobre a proibição. É raro eles transgredirem as normas e derrubarem árvores.
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Pescar ainda é possível, mas, certamente, aquele que se aventura numa pescaria, não se sai muito bem. Não existem peixes como antigamente. No Brejaúba, Xopotó, Rio Espera e Mutuca, os lambaris, carás, bagres, mandis e outros sumiram. Hoje, como antes, os pescadores gostam mesmo é da terapia. Pescar, acima de tudo, é uma terapia. Conversa-se muito pouco no momento em que está à beira do rio, não faze barulho, porque pode afastar a presa. Lambari, cará, piaba ou outro de qualquer espécie assustam-se com as chegada de pessoas à beira do rio. Você tem que chegar de mansinho, ficar por ali, de cócoras36 ou sentado, por horas a fio. Dependendo da profundidade e largura das águas, armam-se duas varas iscadas, sem rede e sem tarrafa. Às vezes, com jequi, balaio feito de taquara especialmente para pegar peixe. Coloca-se o jequi próximo à margem, mergulhado nas águas, onde deságuam os córregos. Os peixes vão córrego acima para caçar frutos silvestres. Se avançarem muito córrego acima, correm risco na volta. Com este sistema é possível pegar cinco ou mais peixes numa só “jequiada”. Claro que os coitados caem na armadilha. O “Jequi” fica dentro d’água com a boca virada no sentido contrário à correnteza. Nas laterais faz-se uma minecerca de bambus, dificultando, assim, o acesso dos peixes às águas mais volumosas. Quando chove, e o rio transborda, acredito que seja o melhor momento para se armar o jequi. É quando eles nadam fora da sua área habitual. Quando as águas começam a baixar, eles ficam desorientados e muitos ficam presos naquelas baixadas, às margens do rio, mas nem sempre se pode aproveitá-los. Os que não conseguem voltar
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36 - Cócoras - Agachado com as nádegas apoiadas sobre o calcanhar.