Páginas 39 a 44: Trajetória de Azambuja Calado

para o leito do rio e estão fora do leito do córrego, morrem todos. Daqueles que ficam no leito menor, muitos serão pegos no jequi. Esses virarão um ótimo jantar.
Naquela época, depois que começamos usar calça curta, éramos ousados, desobedecíamos mais. Eu, várias vezes, fui convidado para passear no terreiro. Evidente, na maioria dos convites que me foram feitos, tinha visitas em casa. Era quando, vamos dizer assim, havia platéia. Nesse caso minha avó esbravejava mais. Eu, atiçado pelos moleques, também azucrinava mais. Era divertido tudo aquilo.
Não tinha televisão, rádio e nem luz elétrica. Em noite de lua cheia, ficávamos acordados até mais tarde. Sentados na soleira da porta, Chico Afonso e Ieié; Inácia, no tamborete. Eu também sentava por ali junto deles, mas eu não parava muito tempo sentado. Se o que os mais velhos estivessem conversando não me interessasse, saía logo de perto.
Numa dessas noites apareceu uma visita. Fazia muito tempo que ele estava ausente de Vaivém: o Quim do Zote, que veio da cidade grande. Ele vivia trabalhando no Rio de Janeiro. No Rio daquela época, que beleza! Quando ele estava pra chegar, uns dias antes da Consuada37, ficava todo mundo ansioso: qual seria a novidade que ele traria?
Quando chegava era todo chic e falante. Trazia sempre muitas histórias, e presentes também.
Joaquim do Zote era fora de série para os padrões de Vaivém de nossa época. Eu, quando muito, viajava pra Alto Rio Doce, Barbacena ou Juiz de Fora. O Quim
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37 - Consuada - Lá em Vaivém, festa de Natal.

 

sempre tinha muitas novidades. Também pudera, com tanto tempo fora, novidades era o que não faltava. Nós, os pequenos, o cercávamos para ouvir suas histórias. Quando não, sobrava uma recordação, assim como uma bolinha de gude ou uma figurinha com adesivo. As bolinhas de gude coloridas e transparentes nós púnhamos próximo dos olhos e olhávamos em direção à luz: luz, lamparina de querosene ou mesmo a chama do fogão de lenha. Durante o dia era mais bonito olhá-las à luz do sol, a bolinha tinha mais brilho.
À noite quando não havia luar, deitava-se muito cedo. Muitas vezes “deitava-se com as galinhas” - não no poleiro como elas, era uma questão de cronologia - às seis, seis e meia ou sete horas, na boca da noite. Chico Afonso era infalível: não tinha luar, ele se “deitava com as galinhas”. Minha avó, Ieié e eu, às vezes, íamos mais tarde pra cama. Nem sempre se tinha que levantar cedo no dia seguinte, mas mesmo assim, ninguém ficava na cama depois que do amanhecer. Ao se levantar, após o café, tratava-se das galinhas e dos porcos. Da horta meu avô era quem cuidava.
O ócio me dá pânico. Naquela época não tinha crise. Imagine criança ociosa, que nada, arruma sempre alguma coisa pra se distrair. Ruim mesmo era quando chovia: ficava dentro daquele casebre, não tinha pra onde ir, quando muito improvisava um guarda-chuva com folhas de bananeiras, ficava andando de casa pro pequeno paiol e vice versa. Minha avó percebia que o guri estava todo molhado e já lhe dava uma bronca danada. Chico Afonso falava: “deixa o menino brincar.” “Não mete a colher de pau”, respondia ela, brava, pra
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cima do ancião. “Não vê que ele pode ficar doente? Depois vai dar trabalho pro Zé Inácio”. Ela mesma preparava algum chá quando eu ficava resfriado. O chá à base de alho e café forte me curava.
Se era dor de barriga com aquela caganeira danada, o chá era feito de “mané-mago”. Preparava-se, com aquelas folhas verdes e água fervente, o remédio, após esfriar, fazia-me engolir aquele líquido de sabor horrível. Não podia adoçar, perdia o efeito. Era ruim aquilo! Quem nunca tomou não sabe o gosto amargo do tal do “mané”. É um santo remédio. Além do mais, não custava nenhum dinheiro: “mané-mago” tinha aos montes perto da porta da cozinha, quase debaixo da goiabeira. Fácil de colhê-lo com as mãos, umas quatro ou cinco folhas era suficientes para curar o sujeito.
Lombriga era horrível. As vezes junto com a caganeira vinham aqueles vermes nojentos, alguns enormes, pareciam um espaguete fino, vindos no meio daquela sujeira fétida. Em determinados momentos, a dor e a pressão para expelir aquilo eram quase insuportáveis. Corria-se pra trás da bananeira, e  mal dava tempo de chegar lá, levantar a camisola e soltar tudo. Nem sempre soltava tudo de uma vez. Lembro-me de precisar correr pra bananeira várias vezes ao dia. Houve situações calamitosas. Certa vez, indo para o local de fazer nossas necessidades, não dava pra correr, quanto mais eu corria, mais era inevitável; cagaria pernas abaixo. Poxa, essas coisas são muito nojentas, igual matar baratas com o sapato. No mais tudo era belo em Vaivém.
Quando saíamos em bando pelo mato à procura de aventura, sempre havia um adulto observando de longe
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os pivetes. No fundo, poucas vezes fazíamos trapalhadas às escondidas. A começar que no grupo sempre existia alguém mais velho. Logo era o que liderava, principalmente quando havia perigo.
O Nunuca38 era o mais destemido. Até pouco tempo atrás ele era o mesmo. Hoje não mais, faz uns anos que ele partiu. O Nunuca  era filho de Chico Arantes e o mais velho dos homens. Corajoso esse meu primo em segundo grau e primo primeiro de Biía.
Naquela fazenda, cheia de Arantes, sou recebido com muito carinho. Sinto-me um verdadeiro cidadão ilustre. Preparam um aposento pra mim próximo à varanda da frente. À noite, antes de dormir, ficamos conversando até tarde. Papeando ao luar, mais de dez pessoas. Até bem pouco tempo não havia luz elétrica. Sem luz eu dormia mais cedo.
Não tem televisão, que vicia o cara e faz a gente dormir muito tarde. Também, não tendo geladeira, não se toma nada gelado, só ao natural. Aliás, uma limonada ao natural, feita com limão “capeta” e adoçada com rapadura, é uma delícia.
Do suculento jantar você mesmo se serve, ali nas panelas de ferro ou de pedra em cima do velho fogão de lenha. Panelas de ferro ou de pedra sabão são muito usadas ainda hoje por aquelas pessoas. As iguarias daquela cozinha, feitas no fogão à lenha, mantêm o sabor e o calor por muito mais tempo. Enquanto se prepara a comida é normal tomar uns goles da branquinha. Quase sempre a branquinha vem acompanhada de um tira-gosto, proveniente da despensa e feito na hora. Pode ser um torresmo, um pé de porco ou uma farofa no
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38 - Nunuca - Apelido de José, filho do Chico Arantes.

 

capricho. Claro que não abuso dos goles. Também me contenho quanto à comida. Como moderadamente pra não aumentar o meu peso que já está elevado. Os horários de almoço e jantar são totalmente diferentes dos horários da cidade grande. Na casa do meu tio Barão, lá na Barra, o almoço é muito cedo. Ele fica bravo com tia Zizinha quando o almoço não está pronto por volta das nove e meia. Certamente ele toma o café da manhã entre quatro e meia ou cinco horas.
Quando estou na Barra, Jabuticaba ou Vaivém é que aproveito para descansar. Abandono o relógio e fico esperando a natureza me conduzir. O calendário não abandono. Tenho receio de me empolgar e me atrasar para o retorno a meus ofícios.
A vida tá dura, a nação estranha. Às vezes vive-se de dinheiro emprestado e, sem tê-lo, como pagar? A desigualdade é grande e a miséria domina. Muita gente mendigando e outras tanto assaltando.
Há vários dias estou afastado destas páginas. A força do trabalho impera. Tenho que defender o meu sustento. E quem não tem?
Pra dizer a verdade, essa de defender o meu, começou ainda em Vaivém. Foi quando ganhei a minha primeira moedinha. Naquela época havia em mim uma tendência a tio Patinhas. Juntava sempre as moedas num cofre em formato de porquinho.
Não me lembro de meu avô, Chico Afonso, mexer com dinheiro, nunca, em minha frente. Mas ele tinha uns cobres39. Era possível que ele tivesse uns patacões40 de prata. Ele às vezes, dava uma de andarilho. Pegava umas coisas,
colocava no bornal e saía. Não sabíamos, nunca,
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39 - Cobres - Metal de cor avermelhado-escuro, quando puro. Dinheiro em cobre.
40 - Patacões - Antiga moeda brasileira de prata, que valia aproximadamente 320 Reis.

 

quanto tempo  iria se ausentar, se uma semana ou um mês. Agora, se a espingarda estivesse desmontada pra viagem, certamente sua ausência seria a mais longa possível. Às vezes ele embrenhava pela Zona da Mata. Também se hospedava em qualquer casa. Não precisava ser casa de parente. Bastava se apresentar. Era recebido por um pernoite ou vários dias, ficava bem a vontade. Dependendo da liberdade que recebia, montava a espingarda e saía atrás de uma caça. Na volta entregava a presa pro dono da casa. Podia ser um tatu, uma capivara ou uma paca, era uma festa. Lá em Vaivém, quando ele caçava, a presa maior era o tatu. Dizia que não era qualquer tatu que servia para comer. O “canastra”, dizia ele, comia defunto. O que me intrigava no “canastra” é que em Vaivém não tinha cemitério, logo não havia defunto enterrado lá. Mas não importa, o “canastra” era desprezado por pertencer a sua espécie. Certa vez  fui com Ieié a uma caçada de tatu. Era noite, não muito tarde. Lá fomos nós na plantação de amendoim, localizada nos fundos da casa do tio Zote. Logo na subida do morro, a poucos  metros da horta. Era noite de lua cheia, mesmo assim levei uma tocha de bambu, chumaço de tecido e querosene. A arma não era espingarda mas sim um enxadão. Não iria dar tiros àquelas horas da noite. Ao chegarmos à plantação localizamos o tatu cavoucando o pé de amendoim. Ele atinge rapidamente a raiz onde estão as bagas. Os grãos nessa época ainda são novos e macios, constituem um ótimo alimento para os tatus-galinha. Ieié era esperto. Naquela noite conseguiu duas presas. Comemos tatu por três dias.
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