Prefácio: Trajetória de Azambuja Calado
Prefácio
Ao percorrer a trajetória de Azambuja Calado o leitor, embora possa não se identificar totalmente com a mesma, certamente este caminhar acionará flashes em sua dormida memória e provocará projeção de imagens, ora alegres, ora tristes, mas sempre marcantes de sua própria trajetória de vida.
O autor, numa linguagem singela vai decifrando suas lembranças, acentuando fatos da infância, da adolescência, e do início da turbulenta fase adulta. Sem preocupar-se com a seqüência lógica de tempo, permite, no entanto, que o leitor vá aos poucos acrescentando aos fatos já relatados, novas e valiosas informações, recompondo e tecendo a rede de sua história.
A paisagem do interior de Minas Gerais, no lugarejo de Vaivém, junto ao Rio Brejaúba, serve de cenário para o percurso à infância - As mais doces peripécias, a caça ao tatu, as armadilhas para aprisionar o pobre e indefeso passarinho, a busca de aventuras ao embrenhar-se no mato. Esquecer, nunca: os brinquedos artesanais, liderado pelo carrinho de bois, o estilingue, o colorido das bolinhas de gude, a troca de figurinhas, a venda dos gibis.
A cultura, os hábitos e os costumes formam o chão da trajetória: acordar muito cedo, almoçar às dez horas, saborear o café da tarde às treze horas, às dezessete a postos para o jantar e com certeza "dormir com as galinhas". O encanto da luz da lamparina ilumina a passagem da fase da "camisola" para a fase da "calça curta", traje especial para a realização da primeira comunhão na igreja do lugarejo mais próximo, São Caetano do Xopotó.
As personagens vão desfilando: a figura paterna, o rígido Sr. Pereira, a protetora Tia Fia, a professora Tia Geralda, o Tio Arantes, a importância do único farmacêutico da região, o Sr. José Inácio de Carvalho, os avós, a doce figura da mãe. Todos oferecem elementos formadores da personalidade de Azambuja.
Da infância vivida principalmente com os avós ao retorno à casa dos pais em Barbacena marcam o início da adolescência. Precocemente o trabalho foi iniciado e com certeza serviu para que os valores se estabelecessem. A fuga para Juiz de Fora e a privação das mais elementares necessidades, aumentaram sua alegria ao retornar para casa e para o ambiente protetor: "a comida da minha mãe era a melhor de todas".
Já com vasta experiência em algumas atividades profissionais, ajudante de cozinha, serralheiro, cobrador de ônibus e o sonho, alimento da alma, de um dia vir a ser ator conduz a personagem para a cidade de São Paulo. Tudo se torna excessivamente difícil: violência, sexo, bebida, a luta pela sobrevivência vão adiando a realização do sonho. O uso da bebida leva a um desfecho inesperado. Todos os fatos são alavancas para escancarar o mundo vivido por Azambuja Calado. Sem nostalgia vão se projetando desejos, sonhos que podem ser também de muitos brasileiros.